Frequência Ausente 19Hz - dramaturgia site specific

ATOR - "Invisível. Sem contorno. Isolado. Perdido. Eu era uma ilha que jamais seria encontrada. A Náusea se apossara do meu ser e agora só trazia enjôo e dor. Não havia nenhum farol para me guiar. Abaixei a cabeça e chorei. Água corria pelas janelas da minh'alma, desaguando uma corrente de vazio pelo meu rosto. À minha volta, um oceano de incerteza. Seria eu capaz de um milagre? Seria eu capaz de recriar meu corpo e voltar a existir para o mundo palpável, de reconstruir meu rosto, meus braços, meus contornos. Eu queria isso?

 

Escutei o rio que corria perto da árvore onde recostara. Olhei para ele. A água, transparente, permitia ver seu leito. Era possível saber o quão profundo ele era. A transparência revelava se poderíamos nos afogar ou nadar em suas águas. Em mim, não se podia mergulhar agora; eu era maremoto.”

O Enigma Voynich - roteiro de áudiodrama

O ENIGMA VOYNICH - PARTE 1

 

Cena 1 - PUNCH! - RUA / TÁXI - ext/noite - 1983

 

Yale, Estados Unidos, noite de verão. Começamos a ouvir, em FADE IN, um gostoso barulho de chuva vindo do lado esquerdo quadro. Uma música toca baixinho num rádio à frente de JOSÉ, 28 ANOS, que está sentado. Pingos de chuva batem suavemente no capô do carro. Algum movimento e podemos ouvir o couro do banco onde estamos sentados. Subitamente, José sente uma pontada de dor no rosto. Geme. Coloca as mãos sobre a face, como que para conter o incômodo, o que abafa um pouco o som de sua voz. Seu olho esquerdo lateja. Começamos a ouvir, também ao lado esquerdo do quadro, duas pessoas discutindo asperamente, ao longe, debaixo da chuva fraca. Não entendemos exatamente o que falam, mas parece que se comunicam em inglês. A chuva continua caindo do lado de fora, levemente. Então, o que antes era uma discussão se torna uma briga e parece que os dois homens vem em direção a José, um correndo do outro. O que alcança primeiro o banco de trás do carro em que José está, entra afobado batendo rapidamente a porta traseira do veículo. O homem que ficou pra trás, soca o vidro da janela, xingando em inglês, e tenta abrir a porta puxando insistentemente a maçaneta. NÉLSON, 30 ANOS, que agora está sentado ao lado de José, dá o comando.

 

NÉLSON

 

Go, go!!!

 

O carro sai em disparada.

 

Por um tempo, só ouvimos a respiração ofegante de Nélson que está molhado de chuva, o rádio que toca uma música baixinho, e mais baixo ainda, a chuva martelando suavemente a carroceria do táxi.

_________________________________________________________________________________________

Cena 6 - PORCELANA - COZINHA NÉLSON - int/dia - 1984

 

Logo após o ataque dos cães. José e Nélson estão na cozinha. Nélson se divide entre fazer o café e prestar atenção despretensiosamente no amigo. José está sentado numa cadeira em frente à mesa. Está atônito, olhando fixamente uma xicara vazia. Aguarda alguma palavra do amigo, ao mesmo tempo em que contempla o vazio da porcelana. É uma xícara verde, média.

 

Nélson derrama a água quente no coador. Se pudéssemos, sentíriamos o aroma do líquido destruindo gentilmente o pó de café.

 

NÉLSON

 

Vai ficar aguado.

 

Ouvimos por mais um tempo a movimentação de Nélson na cozinha. Usa chinelos; isso é possível perceber. Ele deixa os últimos mililitros de água escorrerem para dentro da cafeteira enquanto abre um jornal. Passa rapidamente os olhos pelas notícias, enquanto lê em voz alta, recostado na pia, vira as folhas com força desmedida. Na verdade, ele espera o melhor momento para introduzir a conversa com o amigo, ao mesmo tempo que tenta animá-lo. Ele lê uma notícia e cantarola uma canção.

Jornada - dramaturgia site specific

LOCUTOR -  Outra São Paulo surge diante de nós.

 

Além de perceber as artérias da cidade, veja as pessoas caminhando por essas artérias, em suas próprias jornadas, dentro de cada carro, nas calçadas. Olhe como elas passam umas do lado das outras e não se percebem.

 

Veja a amplitude da cidade. O tamanho do espaço. 

 

A beleza das construções a sua volta: a Oca, o Auditório Ibirapuera, o prédio da Bienal, o verde das árvores em contraste com o concreto, o Obelisco.

 

Perceba também a parede de prédios ao seu redor. Girando 360 graus você verá que há prédios na totalidade do seu campo de visão. Parece estarmos cercados dentro de um muro de prédios. Como um castelo. Como príncipes e princesas presos em seu próprio mundo. Onde está o horizonte? É possível sair daqui? É preciso sair daqui? Estamos seguros?

 

É possível dar certo?  

 

Sinta o número de possibilidades que cada um de nós tem dentro desse espaço enorme.

 

E aproveite para ver a cidade e as pessoas de um outro ângulo, de cima, como um pássaro.

EU - Negociando Sentidos - roteiro audiovisual

CENA 7 - CASA LÉO CAMPINAS - INT - DIA (FLASHBACK)

POV CÂMERA PANASONIC. No visor, 04/11/2012. A câmera está apoiada sobre um móvel, sem nenhuma preocupação com o enquadramento, por isso vemos uma parede e a metade de um quadro cafona pendurado nela. Ouvimos sons de passos, pratos sendo colocados numa mesa. LÉO passa rapidamente pela frente da câmera. Um interfone toca. Ele anda até a cozinha e atende.

LÉO

(off)

Oi. (T) Pode subir.

Ele volta para a sala, pega a câmera na mão. Vemos agora uma mesa arrumada para um jantar. Três cadeiras, pratos, talheres colocados sobre uma toalha xadrez. Duas velas acesas. Ele registra o lugar com detalhes, até que alguém bate a porta. Ele vai atender. É SOFIA, aqui com 26 anos. Ela segura uma garrafa de vinho branco com tampa de rosca; o conteúdo está pela metade.

SOFIA (sorrindo, supresa)

Essa câmera, pra que isso?

LÉO

(off)

Seu rosto.

SOFIA

Meu rosto? Não entendi.

LÉO

(off)

Fica lindo no vídeo.

Ela sorri.

SOFIA

Cheguei cedo?

LÉO

(off)

Um pouco.

Ela não consegue disfarçar o olhar para a lente.

SOFIA

Eu trouxe um vinho branco. Não sabia se precisava mas,

é o que eu bebo, e eu achei que você ia comprar um que eu não gosto e...

Ó, eu acabei bebendo um pouco no caminho pra cá,

por isso a garrafa tá no meio... (T) Ai, isso é tão estranho.

LÉO

(off)

Por que?

SOFIA

Não gosto de ser filmada.

 

Se olham em silêncio, com gentileza. Ela, olha para a lente.

 

B.O.